SOBRE A FILA DO RESUN E A OBEDIÊNCIA ÀS REGRAS

Publicado: 27 de fevereiro de 2016 por victordissertando em ARTIGOS DE OPINIÃO - COLABORADORES
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A infame fila "Indiana" do Restaurante Universitário

A infame fila “Indiana” do Restaurante Universitário – Devido à proteção ao direito de imagem, os rostos mais visíveis foram descaracterizados.

            Amigos, este texto pretende expor uma crônica de uma experiência de conflitos como ponto de partida para pensar o problema da obediência às leis que modulam nossa convivência, em sentido amplo (de trato social, morais, jurídicas, religiosas, etc.). Significa perguntar, diante de uma situação de desordem, por que se obedece aos imperativos da ordem social? A bem da honestidade, devo dizer que minha resposta, como toda teoria sobre algo, é apenas uma fotografia de uma realidade que se desenrola como filme, portanto se quer como registro válido mas parcial e incompleto do que acontece diante de nossos olhos.

                O caso em questão tem se passado no Restaurante Universitário da UFS, conhecido carinhosa e abreviadamente como RESUN, espaço de convivência acadêmica, compartilhamento de experiências, gastronômicas inclusive (o Frango nosso de cada dia), que saciam e preenchem com sentido, companhias e comida a existência e a barriga dos universitários do campus. Bem, diante do crescimento da UFS, que agrega novos servidores, terceirizados e estudantes a cada novo semestre letivo, mas sem egressos equivalentes, o campus tem inchado. A fila do Resun, outrora indiana, tornou-se chinesa (demograficamente falando, é muita gente). A quilometragem tende a crescer e não há expectativa (ao menos no curto prazo) de expansão do Restaurante ou de medidas emergenciais que garantam a eficiência no atendimento à demanda.

                Não é preciso ser de exatas para perceber que o resultado desta equação é a demora exponencialmente crescente para ser atendido, seja no almoço (quando a situação é mais crítica), seja no jantar. Isto se torna especialmente problemático quando em nossa sociedade o tempo é medido, fracionado e cronometrado na busca da maior eficiência possível dos corpos. Em outras palavras: os usuários do serviço não têm a eternidade a ser gasta esperando na fila – é preciso arcar com os compromissos, assistir aulas, voltar ao trabalho, enfim… Em razão do inchaço e da demora, muitos usuários estão reforçando o habitus culturalmente disseminado em nosso país de “furar a fila”, desobedecendo a uma regra que, formulada pelo bom senso, tem por fim garantir alguma ordem e partilhar os sofrimentos (esperas) igualmente conforme a ordem de chegada e preferência.

               Ora, a pergunta a ser respondida perante este quadro de conflito e de desobediência é: por que se obedece às restrições impostas pelos outros? A resposta a esta pergunta interessa de perto ao Direito, e mais de perto ainda a toda coletividade, já que a compreensão e o debate público sobre as coisas políticas (como as regras) é condição central para a construção de uma possível autonomia do sujeito e de uma cultura verdadeiramente democrática.

                Bem, basicamente, a vida em sociedade surge, para muitos antropólogos, a partir do nascimento da regra (a primeira foi a proibição do Incesto, diz Lévi-Strauss). Ainda que não precise ter existido um estágio pré-social, certo é que a regra é condição indispensável à convivência humana por conta da nossa relativa liberdade de ação. A regra, de modo amplo, é aquele comando que diz que se deve ou não fazer tal coisa como exigência do bom convívio na manada, de algo maior que nós mesmos. Na política, os contratualistas mantêm tom semelhante: é preciso ceder alguma liberdade em troca de alguma segurança (mais recentemente, Freud e Bauman, dentre outros, discutiram isso em seus mal-estares). Voltando à controversa fila do Resun, essa segurança seria a garantia e utopia de um atendimento sem privilégios não justificados, obedecendo à ordem de chegada e repartindo razoavelmente o sofrimento da espera entre todos. Na psicanálise, a regra pode ser vista como negação externa do desejo (como parte do superego e pelo princípio de realidade), imposta de fora e recepcionada e reforçada (ou não) por dentro, neste fluxo entre o eu e os outros que é responsável por forjar o sujeito.

                Para podermos negar o desejo, é preciso traduzi-lo em formas supostamente mais elevadas, que sejam necessárias, sob pena de aniquilação das partes e, progressivamente, do todo social. Ressalva importante: em sociedades recortadas por classes, setorializadas por grupos com interesses comuns e, por vezes, antagônicos aos dos demais, nem todas as regras servem para preservação coletiva. Vale o conselho de Bukowski: “As morais são restritivas, mas são fundadas na experiência humana através dos séculos. Certas morais servem para encarcerar as pessoas nas fábricas, igrejas e submetê-las ao Estado. Outras fazem sentido. É como um pomar repleto de frutos envenenados e bons frutos. O negócio é saber qual apanhar pra comer, qual evitar.” Troquem “moral” por “regra” e entenderão meu argumento. Vejo a obediência à fila, neste caso, como um bom fruto do pomar, algo que faz sentido.

                Nessa linha, considerando a regra como exigência do caráter intersubjetivo da vida, como meio de mediação entre o eu e o outro, a supressão ou castração do meu desejo exige semelhante supressão ou castração do desejo alheio, pois a regra figura como corda em um cabo de guerra, como elo de coesão de relações sociais em permanente tensão. Quando um lado solta a corda, o outro cai. Não faz sentido frustrar-se sozinho em nome do nada. É dizer: a obediência à regra por um pressupõe a obediência por “todos”, ou por uma parcela significativa do grupo. Assim, se injustificadamente alguém furar a fila do Resun, o maior dano causado não é a espera mais longa, é a violação simbólica da proibição a todos imposta.

                É evidente, neste sentido, que a cultura do jeitinho (sem querer redundar em complexos de vira-latas) em muito contribui para as transgressões resunianas. Entendo o jeitinho como hábito ou costume de submissão das regras de convivência aos quereres arbitrários das partes, a mania de querer levar vantagem em tudo, a esperteza perversa valorizada. Destarte, a regra, que deveria manobrar o desejo e impor a ressignificação da conduta pelas exigências sociopolíticas, acaba sendo por ele moldada. E isto se dá mediante uma série de desculpas para aplacar a consciência do transgressor e justificar para os outros seu desate do elo normativo. Isto é especialmente problemático quando o outro funciona como espelho da minha conduta. A transgressão simbólica cria uma crise moral, distorce a imagem ideal da retidão imposta a cada um como condição da ordem global. O pior é a urgência e a frustração da responsabilidade de dar o exemplo quando ninguém parece dar a mínima. Quem pode suportar sozinho o peso da obediência? Este é o drama do Resun.

                Por fim, devo dizer que este meu retrato parcial e precário, esta fotografia de uma fila que caminha problematicamente como filme todos os dias, tirado a partir de um olhar situado, limitado e particular, tem como principal missão incentivar o debate sobre o tema da obediência. Pelos limites estruturais do texto, não comentei pontos essenciais, como a fantasia impossível do controle total do arbítrio pela regra (é também o sonho do direito moderno), ou da obediência plena, por exemplo. Não comentei sobre as transgressões como próprias da dinâmica social ou mesmo como reações à violência do normal. Não falei sobre a imposição das normas pelo poder do Estado, com seu monopólio da violência legítima (ver Weber). São tantos silêncios… mea culpa.

                Enfim, este texto é uma foto 3×4 de um fenômeno que abrange toda a vida social e política do homem. Pensar sobre obediência é pensar sobre alteridade e sobre os laços que nos atam uns aos outros, sobre existências compartilhadas, conflitos e coesão social. Aos que leram até aqui, fica o convite ao debate e a esperança de construirmos, juntos, uma foto panorâmica!

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comentários
  1. Yole Soares disse:

    Argumentos coerentes e fundamentados. Parabéns pelo desenvolvimento, um retrato 3×4 que nos remete à uma visão bem mais ampla!

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  2. KAMBAMI disse:

    Regras, submissão, dever, transgressões, obediência, enfim, quando a fome bate mesmo os digníssimos universitários deixam de lado o “habitus” e partem para “inconveniens”, rsss. Mas enfim, já deram jeito ou vão esperar alguém se morder? 😉

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  3. Geraldo Magela Vieira de Souza disse:

    Diante do exposto, aplausos pelo texto tão grandiosamente urdido. Fazer o MEA CULPA parece que ficou num passado remoto em que as cinzas foram espalhadas. O escrúpulo de certos caniços pensantes ainda não brotou no interior da fonte.

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